sexta-feira, 9 de julho de 2010
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Reparem bem: um tipo que se afirma como liberal clássico ou conservador à americana (libertário), jamais, repito, jamais, pode ser funcionário público ou almejar uma carreira na função pública. Ponto. Da mesma forma, todos aqueles, e são muitos, que defendem o liberalismo e coiso e tal, sendo professores tipo holofote em universidades públicas, altos quadros do banco de Portugal e outros que tais, não passam de meros tarados. E que dizer dos comentadores liberais que defendem a privatização da RTP à segunda e vão lá comentar à terça? Numa palavra: tarados.
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Do paraíso alternativo:
Esqueça a foto da pin up lusa (seu tarado) e acredite, old horse. O teu (meu) país em rápidas e sombrias pinceladas: é justamente a terra da Amália, do Eusébio, do Vasco Santana e Ribeirinho; ah! e da simpática rainha Carmen Miranda, mas essa deu em brasileira, ou, em portuguesa à solta (assim dessem todas). Não é esta a imagem positiva deste país? Não é uma espécie de paraíso alternativo para os tarados do universo?******
A propósito de portuguesas à solta e tal e da pin up ao lado, direi que este país ganharia muito se ela fosse adoptada tal como está (vestuário, pose e a bola) como imagem da nossa república em substituição do mono nada erótico que temos. estás a ver não estás? A Assembleia de República, nos raros encontros entre deputados (estão sempre fora em viagens politicas), no bar ou café ali ao lado dos "passos perdidos"; e os telefonemas domésticos implacáveis que os intimam a voltar para casa, interrompendo os seus animados discursos a favor da liberdade, democracia representativa, estado de direito, propriedade privada, pois… Fantástico não?!
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Por fim um elogio sentido à pin up. Aliás dois. Não usa cilicone nas bazoongas (mil pontos), e usa um reforço de fio dental verde para compor o ramalhate nacional, ou como quem atira: não sou peituda mas sou tesuda! (pontos mil).
A era da grande instabilidade, dizes?
Ok caro, já sabemos como funciona. Mais um para nos Roubini a carteira. Mas agora troque de posição; e conceba um jovem comum, como eu, bem educado ou homem letrado com formação superior numa escola pública ou faculdade, quando dá de caras com um livro como este (na imagem) — digamos, um livro que nos ajuda a prevenir saraivadas económicas como a actual crise; um livro de auto-ajuda, portanto. -"Vem mesmo a calhar!" - diz o jovem que eu sou; e mais, ainda digo que de nove hipóteses em dez, este jovem bem-educado (eu) não sabe o que irá encontrar naquele precioso volume: pensa que irá encontrar uma lição sobre a capacidade de vencer as crises com política, sociologia, forma de governo, enfim, uma série de noções científicas e abstractas que estão sobre a mesa – a menos que o autor seja demais e inove, bah…querias! - no nosso adorável (como um porco espinho) espírito do tempo? Aliás, encontrará tudo aquilo que poderia ser aconselhado por um crente do “Socialismo”? Um Manuel Maria qualquer? Para quê, então, não me poupar à descoberta de mais uma dourada e fervilhante lição sobre a capacidade dos anjos se equilibrarem em agulhas. Porquê?
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quinta-feira, 8 de julho de 2010
Paradoxal, eu?
Como Chesterton eu não sou liberal apesar de ser católico,mas, ainda, sou liberal precisamente por ser católico. Embora reconheça na receita do liberalismo teórico um mesmo pecado original que encontro em todos os outros “ismos” pós-Kantianos – a sobrevalorização do indivíduo (neste caso, positiva) –, não consigo encontrar uma outra receita que se adeqúe mais perfeitamente à minha necessidade espiritual. ******
Foi o pecado original do liberalismo, no que não difere de todas as correntes de pensamento modernas, que levou à separação da família liberal e à cristalização de correntes liberais tanto no socialismo como no conservadorismo. O facto da maioria identificar os liberais com os conservadores tem duas explicações: em primeiro lugar uma explicação óbvia de tão simples e que tem que ver com o facto dos conservadores nunca terem tido ninguém à altura para pensar o seu sistema, ao invés, adoram fazer alarde com pensadores liberais; em segundo lugar uma explicação mais complexa e que tem que ver com o sistema que apareceu após as duas grandes guerras, sobretudo nos anos 50 e 60 do século passado. Nessa altura, o mundo bipolarizado entre um “primeiro mundo” industrializado e capitalista e um “segundo mundo” industrializado e socialista, vamos dizer assim para simplificar, assistiu ao “endeusamento” do paradigma económico. A geometria estática da altura e mais ou menos previsível, antepunha projecções lineares ou balísticas do passado quer se sustentassem numa filosofia de economia de planificação central e de industrialização intensiva, quer na crença de um crescimento imparável e na emergência da modernidade industrial centrada na configuração do Estado-Nação, na razão providencial (do estado de bem-estar social) e nas relações de troca efectuadas num mercado dinâmico, estruturado em função do aparelho produtivo por um lado e nos consumidores por outro. Num contexto de optimismo internacional o peso que a economia veio a ter fez com que muitos (ligados ao capital e ao ocidente industrializado) se dissessem liberais como defesa do laisser faire, ou seja, apenas para garantir o modelo da economia capitalista. Tudo isto teve uma consagração mais ou menos dramática num sistema constituído pelo conjunto de "nações industrializadas" reunidas sob a égide da OCDE, a qual, passou a liderar sobre os principais factores mundiais de crescimento: capital, ciência e tecnologia, o trabalho, mercados de bens e serviços, concepções de gestão; todos conjugados afinal para a obtenção do chamado “pleno emprego” e geração de altas taxas de rentabilidade social e privada. Temos pois que grande parte dos que se dizem liberais são até apenas sociais-democratas, socialistas portanto.
G. K. CHESTERTON — an author review:
From about 1905 to 1925, three of the most prominent popular intellectuals in England were George Bernard Shaw, H. G. Wells, and G. K. Chesterton. Both Shaw and Wells are still considered important figures, but Chesterton is remembered, outside of conservative Catholic circles, only as the author of some early mysteries. The reason is not the quality of what Chesterton had to say. Those of his views which seem odd to a modern reader are mostly ones he shared with his opponents and with much of the advanced opinion of the time. The positions which distinguished him from those around him, in particular his distrust of socialism, paternalism, and the general philosophical trends of the late nineteenth and early twentieth century, look more and more convincing with every decade that passes.
Shaw and Wells, however wrong and dangerous their visions of supermen and scientific or socialist Utopias have turned out to be, were 'left', therefore progressive, and therefore significant. Chesterton was not. He was a radical liberal in the nineteenth-century tradition, what would now be called a libertarian—a believer in private property (and its wide distribution) who denied that the only alternatives were socialism or the status quo. As he put it: "I am one of those who believe that the cure for centralization is decentralization. It has been described as a paradox. There is apparently something elvish and fantastic about saying that when capital has come to be too much in the hands of the few, the right thing is to restore it into the hands of the many. The Socialist would put it in the hand of even fewer; but those people would be politicians, who (as we know) always administer it in the interests of the many."
Chesterton was not a conservative; in one of his debates with Shaw he pointed out that his opponent was spending a good deal of time attacking "the present system of industrial England... Who except a devil from hell ever defended it...? I object to his Socialism because it will be . . . devilishly like Capitalism."
Chesterton was not a conservative; in one of his debates with Shaw he pointed out that his opponent was spending a good deal of time attacking "the present system of industrial England... Who except a devil from hell ever defended it...? I object to his Socialism because it will be . . . devilishly like Capitalism."
That sounds paradoxical; when you have eliminated capitalism and socialism what remains? But to Chesterton 'Capitalism' did not mean private property and individual liberty. It meant what he believed he saw around him—a society dominated, economically and politically, by capitalists, in which most people worked for large companies, bought from large monopolies, and read newspapers controlled by a few millionaires—who were, by a curious coincidence, the friends, supporters, and relatives of the ruling political establishment. He accepted much—perhaps too much— of the socialist critique of the then current state of England, while arguing that the socialists' cure went in precisely the wrong direction.
The response of many of his critics was to claim that Chesterton's ideas were simply out of date. He responded that date was irrelevant: "We often read nowadays of the valour or audacity with which some rebel attacks a hoary tyranny or an antiquated superstition. There is not really any courage at all in attacking hoary or antiquated things, any more than in offering to fight one's grandmother. The really courageous man is he who defies tyrannies young as the morning and superstitions fresh as the first flowers. The only true free-thinker is he whose intellect is as much free from the future as from the past. He cares as little for what will be as for what has been; he cares only for what ought to be."
Chesterton did not limit his unpopular views to politics. In religion he began his intellectual career as an agnostic of vaguely Christian inclinations, became a more and more orthodox Christian, and towards the end of his life converted to Catholicism. If he had chosen his beliefs with the deliberate objective of offending contemporary intellectual opinion he could scarcely have found two better suited to the purpose than nineteenth-century liberalism and Catholicism. Perhaps what is surprising is not that he is generally forgotten but that his books have not yet been publicly burned.
Chesterton did not limit his unpopular views to politics. In religion he began his intellectual career as an agnostic of vaguely Christian inclinations, became a more and more orthodox Christian, and towards the end of his life converted to Catholicism. If he had chosen his beliefs with the deliberate objective of offending contemporary intellectual opinion he could scarcely have found two better suited to the purpose than nineteenth-century liberalism and Catholicism. Perhaps what is surprising is not that he is generally forgotten but that his books have not yet been publicly burned.
When I first discovered Chesterton I was already a libertarian. I enjoyed his political essays while being puzzled and intrigued to find him defending, with equal intelligence and persuasiveness, Christian and even Catholic orthodoxy—ideas which seemed as indefensible to me as his (and my) political views seemed to everyone else. It was still more intriguing to learn that he was a Christian not in spite of being a libertarian but because of it. In trying to find a secure basis from which to defend his political position, and indeed his whole view of reality and man's place therein, Chesterton, by his own report, found himself pushed step by step towards Christian orthodoxy. Asked why he believed what he did, he replied:
"Because I perceive life to be logical and workable with these beliefs and illogical and unworkable without them."
Modern libertarians will find that a strange claim; despite a small minority of Christians, most vocal libertarians today seem to be either agnostics or atheists. So far as my own intellectual experience is concerned, I have not, despite my admiration for Chesterton, become a Catholic or even a theist. I have, however, found myself forced step by step into a philosophical position that might be described as Catholicism without God—the belief that statements about right and wrong are true or false in essentially the same way as statements about physical reality, that 'one should not torture children' is a fact in very nearly the same sense as 'if you drop things they fall'. I will not try to defend that conclusion here, but I think it worth recording as evidence that modern readers, especially libertarians, should take seriously Chesterton's claim concerning the connection between his political and religious views.
Modern libertarians will find that a strange claim; despite a small minority of Christians, most vocal libertarians today seem to be either agnostics or atheists. So far as my own intellectual experience is concerned, I have not, despite my admiration for Chesterton, become a Catholic or even a theist. I have, however, found myself forced step by step into a philosophical position that might be described as Catholicism without God—the belief that statements about right and wrong are true or false in essentially the same way as statements about physical reality, that 'one should not torture children' is a fact in very nearly the same sense as 'if you drop things they fall'. I will not try to defend that conclusion here, but I think it worth recording as evidence that modern readers, especially libertarians, should take seriously Chesterton's claim concerning the connection between his political and religious views.
In arguing that Chesterton's current invisibility is due more to our faults than to his, I must deal with one serious charge often made against him—that he was anti-semitic. It is, I think, exaggerated but not entirely without foundation. The accusation arises in part from his association with two other writers, his brother Cecil Chesterton and his friend Hilaire Belloc, who may well have been anti-semitic, in part from an accident of Chesterton's personal history, and in part from an important element of his political ideas.
The historical basis was the Marconi Affair, a political scandal in which a number of government ministers made money speculating in the stock of the American Marconi company, apparently taking advantage of inside information that the British Marconi Company was to be awarded a government contract to build a chain of wireless stations. Cecil Chesterton wrote a series of vituperative articles attacking several of the principal figures, was sued for criminal libel, conducted his own defense (incompetently) in the belief that the ability to argue was an adequate substitute for knowledge of the law, was convicted and briefly jailed. Three of his opponents in the case, Godfrey Isaacs, a director of both the British and American Marconi Companies, his brother Sir Rufus Isaacs (later the Marquis of Reading), then Attorney General, and Herbert Samuel, the Postmaster General, were Jewish.
G. K. Chesterton was very much affected by the case, partly because of the threat to his adored younger brother and partly because the attempt by the (Liberal) government to cover up the scandal and squelch dissent was to him symbolic of the abandonment of Liberal principles by the Liberal party. As he put it somewhat later "more than I ever did, I believe in Liberalism. But there was a rosy time of innocence when I believed in Liberals."
One result is that when villains in G. K. Chesterton's stories are rich and powerful, they are also quite likely to be Jewish.
A more important element in Chesterton's attitude towards Jews was his view of nationalism. He was an anti-imperialist and 'little Englander' who believed that patriotism was an appropriate attitude for small countries, not empires. When Britain attacked and annexed the Boer Republics of South Africa, he was pro-Boer. Later, commenting on World War I, he wrote: "I myself am more convinced than ever that the World War occurred because nations were too big, and not because they were too small. It occurred especially because big nations wanted to be the World State. But it occurred, above all, because about things so vast there comes to be something cold and hollow and impersonal. It was NOT merely a war of nations; it was a war of warring internationalists."
What does this have to do with anti-semitism? For the answer one must read 'The Problem of Zionism', a 1920 essay which contains both ammunition for attacking him as an anti-semite and evidence that he was not. Its central thesis is that the 'Jewish problem' comes from the fact that the Jews are a nation in exile, so that British Jews, French Jews, or German Jews are not really Englishmen, Frenchmen, and Germans. Ignoring the problem will not make it go away; the solution, if any solution is possible, is to establish a Jewish state.
What does this have to do with anti-semitism? For the answer one must read 'The Problem of Zionism', a 1920 essay which contains both ammunition for attacking him as an anti-semite and evidence that he was not. Its central thesis is that the 'Jewish problem' comes from the fact that the Jews are a nation in exile, so that British Jews, French Jews, or German Jews are not really Englishmen, Frenchmen, and Germans. Ignoring the problem will not make it go away; the solution, if any solution is possible, is to establish a Jewish state.
One difficulty with doing so is that the non-Jewish inhabitants of Palestine view Jews with suspicion, precisely because of national characteristics such as the tendency to be bankers instead of blacksmiths and lawyers instead of farmers, which have resulted from their exile. In order for Israel to work, "The modern Jews have to turn themselves into hewers of wood and drawers of water. . . . It will be a success when the Jews in it are scavengers, when the Jews in it are sweeps, when they are dockers and ditchers and porters and hodmen."
Chesterton recognized that this was precisely the ideal of some of the Zionist settlements; commenting on the collision between the anti-semitic stereotype and the Zionist ideal, he wrote: "It is our whole complaint against the Jew that he does not till the soil or toil with the spade; it is very hard on him to refuse him if he really says, 'Give me a soil and I will till it; give me a spade and I will use it.' It is our whole reason for distrusting him that he cannot really love any of the lands in which he wanders; it seems rather indefensible to be deaf to him if he really says, 'Give me a land and I will love it.'"
It is an extraordinary essay; the best, perhaps the only, way to understand in what sense Chesterton was either anti- or pro-semitic is to read it in full. It is easy to extract chunks which appear anti-semitic, such as his half serious suggestion that Jews be freed from all legal restrictions save one, the requirement that they dress like Arabs in order to remind themselves and their hosts of their essential foreignness. It is equally easy to find passages that could have been written by a Zionist. I found his assertion that Jews are foreigners in the countries where they live, which seems very odd to an American, less shocking than I might have precisely because I had heard it first from European Jews.
It is an extraordinary essay; the best, perhaps the only, way to understand in what sense Chesterton was either anti- or pro-semitic is to read it in full. It is easy to extract chunks which appear anti-semitic, such as his half serious suggestion that Jews be freed from all legal restrictions save one, the requirement that they dress like Arabs in order to remind themselves and their hosts of their essential foreignness. It is equally easy to find passages that could have been written by a Zionist. I found his assertion that Jews are foreigners in the countries where they live, which seems very odd to an American, less shocking than I might have precisely because I had heard it first from European Jews.
Such arguments sound somewhat different from an outsider, yet I think it would be hard to read the essay with an open mind and not end up admiring Chesterton for his attempt to deal honestly with what was and is a difficult problem. And it is worth noting that he applied the same principles to himself. His eventual decision to convert to Catholicism was a decision to identify himself with a group viewed, by most Englishmen, as alien and suspect. He was defending the same principle—the idea that national groups should be themselves and not poor imitations of someone else—when he criticized Indian Nationalism for being "not very Indian and not very national"—in an article read by a young Indian student named Mohandas K. Gandhi.
What most sharply distinguishes G. K. Chesterton's writing from that of most other ideological writers, before and since, is its essential sanity and good humor. His ideological opponents, even the villains of his fiction, are neither devils nor fools but fellow human beings, in many ways admirable, whose views he thinks mistaken. In both his debates and his novels the ultimate objective is not to destroy those who are in the wrong but to convert them.
By David Friedman, in The Machinery of Freedom
By David Friedman, in The Machinery of Freedom
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quarta-feira, 7 de julho de 2010
Dois poetas:
Sete anos de pastor*Camões
Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
mas não servia ao pai, servia a ela,
e a ela só por prêmio pretendia.
Os dias, na esperança de um só dia,
passava, contentando-se com vê-la;
porém o pai, usando de cautela,
em lugar de Raquel lhe dava Lia.
Vendo o triste pastor que com enganos
lhe fora assi negada a sua pastora,
como se a não tivera merecida,
começa de servir outros sete anos,
dizendo: “Mais servira, se não fora
para tão longo amor tão curta a vida.”
*Publicado pela primeira vez em 1595, quinze anos após a provável data da morte do poeta.
******
Primeiro Fausto "Primeiro tema: o mistério do mundo": VI
Fernando Pessoa
Ah, tudo é símbolo e analogia!
O vento que passa, a noite que esfria,
são outra coisa que a noite e o vento —
sombras de vida e de pensamento.
Tudo o que vemos é outra coisa.
A maré vasta, a maré ansiosa,
é o eco de outra maré que está
onde é real o mundo que há.
Tudo o que temos é esquecimento.
A noite fria, o passar do vento,
são sombras de mãos, cujos gestos são
a ilusão madre desta ilusão.
Porque és do partido A e não do B:
Acaso ofende assim tanto alguém dizer que entre a esquerda e a direita está acima? Desde quando formular a questão de maneira um pouco mais inabitual sem deixar de ser precisa é motivo para se ser julgado ou levado menos a sério? Ora, pessoalmente, vejo na postura blasé e pedante de quem quer se mostrar “acima do debate” e ensaia a fuga para a frente, batendo no peito que é isto ou aquilo, apenas uma confusão dos tempos modernos em que se confunde termos e se chafurda na coisa burguesinha que são os grupinhos em que se nasceu ou se pelejou para ser aceite. Ah, isso leva-nos a outra atitude malsã que é negar o clube do partidarismo. Esse então, ui ui. É que mesmo admitindo-se que é inteiramente natural haver tensão entre as vagas definições (mais sensações, na verdade) políticas aceites pela comunidade e as auto-definições do indivíduo (que acontecem, quando chegam a acontecer, após um longo período de maturação), mesmo assim, todos acham assim tão natural a existência de juventudes partidárias?!******
Não estranha pois a ausência de critérios explícitos até em gente que deveria ter juízo. Por exemplo quando a conversa é sobre a economia e o actual estado da economia ou formas de se sair da crise. Muitas vezes oiço e leio de opinativos variegados críticas a este ou aquele sistema ou opção, que são a bem dizer, apenas a verbalização de simpatias ou antipatias de clube, como se a conversa andasse em torno das qualidades intrínsecas de se ser benfiquista, sportinguista ou portista. A crítica económica também depende de argumentação e prova; por alguma razão, os delicados espíritos que se julgam muito nobres por estarem sempre do contra só porque sim, costumam ter aversão à ideia de ter que provar (ou ao menos tentar provar) alguma coisa, como se isto fosse uma profanação terrível da sua preciosa experiência ou visão saturnina de vida. E, ainda que seja saudável desprezar a opinião que trata a situação do país como um cadáver, isto não significa que se deva subitamente abandonar o intelecto e valorizar uma opinião só porque ela conseguiu tirar o pseudo-opinativo, o comum leitor de blogues e jornais do seu permanente estado de letargia. O critério "se eu gostei, deve ser bom", que é o memo que dizer “se foi dito ou escrito por quem identifico como pertencente ao meu clube”, além de ser o mais egocêntrico possível, também destrói a possibilidade de uma diferenciação real das experiências, e com isso a ideia de que possa existir um fundo de esperança, uma esperança que possa, por ser esperança, actuar como mola para se sair de situações difíceis. Sem o desejo de tentar provar algo, os nossos opinativos são só uns palhacinhos que querem palco para atrair atenção, exactamente como um concorrente do “Big Brother”.
******
" Antigamente, o silêncio era dos imbecis; hoje, são os melhores que emudecem. O grito, a ênfase, o gesto, o punho cerrado, estão com os idiotas de ambos os sexos."
By Nelson Rodrigues
terça-feira, 6 de julho de 2010
Ortodoxia e os "ismos":
G. K. Chesterton (na foto), escreveu o ensaio Ortodoxia como resposta a um desafio lançado pelos modernos do início do século XX, e a mensagem ali contida, surge-nos hoje mais do que actual. Depois de um final de século particularmente vitorioso para o capitalismo e um dealbar de século que confirma por quase KO essa vitória, vemos hoje, proliferar novamente um assanhado sentimento utópico e revolucionário - outrora exclusivo dos socialistas e comunistas. Por exemplo na internet: basta passear por certos blogues cujos autores se dizem de direita e dentro da direita se dizem liberais, e, vemos passar à nossa frente novamente a velha “ganga” de certezas inabaláveis e credos irrefutáveis; entre elas vem a certeza de que basta destruir o que existe (estado, instituições, uma golden chare, etc.) para florescer uma nova sociedade; não se cuida que tal desiderato, longe de constituir um caminho, é, ao invés, a estrada rumo ao cinismo e ao caos. ******
Ora, se de alguma coisa já podemos ter certeza é de que não há certezas que nos valham. Hoje, o traço distintivo dos seres humanos é a incerteza. Tudo é incerteza meninos! Não sejam burros e oiçam: -“ não nos é possível, de todo, ignorar a diversidade, a imensa diversidade, e, apresentar uma solução absoluta, que teria de ser imposta, ok?! Chega-nos a história do século XX como exemplo acabado e recente, dos resultados de décadas de lubrificação ideológica e revolucionária das cabeças pensadoras. Estou a falar de ideologia, utopia e revolução e não de ortodoxia, essa, a ortodoxia, continua a ser a resposta essencial ao desafio de todos os “ismos”, a começar por Kant (ou desde Kant) até agora.
segunda-feira, 5 de julho de 2010
Detective Stories:
Alvin Langdon Coburn
Broadway at Night
1909
Broadway at Night
1909
Com um século já decorrido sobre esta fotografia, eis que ela surge-me num dia quente que adivinha muitos outros dias quentes pela frente, e, faz ter saudades do inverno. Não do inverno em si ou de um qualquer inverno; mas do inverno dos filmes de espionagem ou o inverno das histórias de detectives. Um inverno nocturno e de chuva miudinha, tão profundamente nocturno como profundamente misterioso. Ah, a Broadway no inverno, "at night", onde amei e fui amado por mulheres que só existem dentro de romances que eu teria lido se tivesse seguido o meu plano de ler mais romances de espiões e detectives ao invés de me ter ficado pelos filmes: desenrolam-se como um tapete felpudo diante dos meus passos imaginários. No fim da rua há um café onde paro para beber um bourbon minted tea. Da minha pasta "camel" retiro fotografias, e uma fotografia em especial ponho discretamente sobre a mesa e com isso chamo a atenção dum velho que na mesa ao lado vai levando à boca o que parece ser sopa.Whatever:
A algum tempo que venho com a ideia de escrever um post em que um político subpoeta, ou poeta subpolítico, vagamente baseado no Manuel Alegre, seja a vedeta. Chego no entanto à conclusão, triste conclusão, que não é possível escrever um post nem coisa nenhuma sobre personagem tão ridículo; - “e depois” – dizes tu – “era tão tópico, tão actual escrever sobre o candidato poeta”. O candidato poeta ou "queremos um presidente poeta", são miminhos que me deixam com o vómito na boca. Irra! Ora, se alguém quiser escrever por favor escreva: não há nada tão engraçado como um político cujo nome se presta a trocadilhos como “pateta alegre”. Verdade seja dita: o tipo não aquece nem arrefece; é tão incompetente, até na arte de divertir, que só consegue entreter bichos-da-seda, militantes do bloco de esquerda e alguns eventuais socialistas. E eu, eu mesmo, é que ia postar aqui alguma coisa sobre essa caricatura? Como-é-mesmo-o-nome do gajo? Whatever. Já escrevi. C´est le bordel!
Ok, é consabido que o Vasco Pulido Valente é uma criatura cheia de problemas. Um dos seus problemas maiores é, porventura, vogar num mundo só dele. Esse é um dos problemas de tipos como ele, aqui e em toda parte: o isolamento completo em que vivem. O jornalista? Escritor? Mero opinativo? O Vasco “Pulido” Valente consegue estranhar que o tenham metido em apuros judiciais, que existam pessoas que levem a sério e caprichosamente as suas diatribes caluniosas, e que, canhestras ou não, como se nunca tivessem ouvido insultos na vida, decidam dar com o bom e sincero Vasco com os costados na justiça, na iminência de desembolsar €100.000 dele. Adiante. Dando um pulo ligeiro e felino sobre quem acha aquela redução do pensamento (que é timbre do triste “tribuno” Vasco) um achado (“só é pobre quem quer”), a pergunta que se impõe é: aonde vamos parar se qualquer um pode debitar umas infantilidades, por cima caluniosas e um tanto abaixo de qualquer crítica adulta e séria, arrasando putativos inimigos só porque sim? O que principalmente chama a atenção neste texto todo é: a lata ser tanta que já não espanta!Como já não espantam os tribunais e a justiça portuguesa, esse bordel.
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Vasco
A decadência afecta a mentira:
É certo e sabido que a Internet se transformou no fim da profissão de jornalista como a conhecíamos; não só porque se torna cada vez mais desnecessária a figurinha do tipo, como diria Chesterton, que escreve as suas nédias histórias a soldo de um qualquer capitalista ou director, mas, ainda, porque pelo menos a dignidade daquela pessoa se perdeu vai aí para uns 100 anos (jornalismo a sério só existiu até aos princípios do século XX), sem que a tenha recuperado, e, agora, agora, vai mesmo pelas vielas mais imundas e arrastada para a sarjeta mais nauseabunda. O mais digno e pomposo jornalista corre o risco de ser insultado, ou contestado por um qualquer sujeito cheio de razão. Não importa se o texto é solene, melancólico e magoado, se está escrito para provocar adesão e simpatia, não importa! Logo, junto das "focas" que batem palmas de contentes, existe o tipo esclarecido que põe a nu o texto, o seu autor e assim, assim, não há dignidade que resista. Mas pior que isso é que não há texto que resista. Comentários furiosos de leitores furiosos, comentários chatos de leitores chatos, comentários esclarecidos de leitores esclarecidos; a fúria, a chatice e o esclarecimento logo ali abaixo do texto a estragarem o efeito da coisa. Temos Pena.
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Pedro Rolo Duarte
sábado, 3 de julho de 2010
A minha bondade é muito maior do que a tua, asshole:
Sim, sim. Escuta, vou falar a sério agora. Entro no café das brasileiras onde normalmente bebo uma bica às cinco da tarde e sinto pena, pena de verdade – juro, juro – das meninas com as carinhas vazias de sofrimento, dos clientes outros que não falam, daquele tipo com cara de subdesenvolvido ali em pé no meio do café a olhar tristemente, estrabicamente, para a televisão. Dói imaginar com quanta expectativa todos os brasileiros emergentes encaram o mundial de futebol, planeiam festejos e ficam abertos a experiências novas como se fosse carnaval ou a passagem do ano. Mais, tenho sobretudo pena da brasileira peituda que é dona do café e, preparo mentalmente uma frase de conforto, do género: - “vai um abraço forte? A sério, encosta-os a mim”. Que mulher não gostaria de receber um conforto destes? Ein?
A Larissa é outro futebol:



Depois de Portugal ficou o Brasil, agora que esse se foi, sou pelo Paraguai. Corrijo: sou pela Larissa Reiquelme. Não, a sério, peço que se observe bem a Larissa. Reparem na posição, nas cores do traje, nos cabelos, na garganta a estalar de exultação, em "tudo". Em "tudo" que é suporte de telemóvel (por sinal igual ao meu. A pena que dá não poder ir lá falar de assessórios ou d'outra merda qualquer, aí!). Neste momento o amor jorra de mim como cuspe, é até melhor tu dares uns passinhos para trás. E num tom angelical a minha voz ressoa, besuntada de mel astral o écran do portátil e quem estiver por perto. Digo num perpétuo tom chorão, condoído e já sem dicção: Aí! Viva o Paraguai e viva, viva, viva Larissa! Mais um pequeno episódio na vida dum país:
Em 2010 descobrimos finalmente com quantos paus se faz a utilização de uma golden share e fez com que alguém isoladamente ou em grupo desse três saltinhos suspirados. Outros, em uníssono, gritaram a plenos peitos: “que importa, se o gesto é belo?” Em que ficamos? A golden chare está aí e tem uso, aconteceu numa quarta. Quando chegou a sexta, os membros mais sóbrios da burguesia lisboeta – o banqueiro Fulano, o industrial Beltrano, o magnata da bolinha sagrada – consideraram o assunto e chegaram, cada um de pantufas, no canto mais privado das respectivas cabecinhas, à conclusão de que o mundo enlouqueceu e alguma coisa tem que ser feita. – “Chegamos ao limite imposto pelo bom-tom quando se perde tão bom negócio”. “Chega, chega”, disse Fulano em voz alta, enquanto punha pó de talco nos sapatos vela. “Se fossem dois milhões, eu riria até a segunda. Quatro milhões, até quarta. Um milhão apenas chega! Beltrano, meu caro – ao trabalho!”
sexta-feira, 2 de julho de 2010
The fuck is that, nigga?
Memorial de um tempo em que se perdem afectos. The fuck is that, nigga? Ah, nada que tenha “A Patriotice Golden” no título é bom.Esses novos sentimentos corny só lhe ficam bem.
Mas não está certo, não devia ser assim, viver com essa certeza de que o mundo é essencialmente idiota. Devia haver pelo menos a possibilidade de que alguém no mundo fosse vagamente interessante. E havia. Mas já não há. Que houvesse alguma chance de alguém ser o estereótipo. O meu. Mas já não há. Oh a vida sem um eleito do peito é seca e feia. E o rosto das pessoas sem um eleito do peito é estúpido. Ora, assim é que me encontro: seco, feio e estúpido. E era bonito, como era bonito!
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The Ball and the Cross
" MacIan turned upon him with a white face and bitter lip. “Sir,” he said, “talk about the principle of love as much as you like. You seem to me colder than a lump of stone; but I am willing to believe that you may at some time have loved a cat, or a dog, or a child. When you were a baby, I suppose you loved your mother. Talk about love, then, till the world is sick of the word. But don’t you talk about Christianity. Don’t you dare to say one word, white or black, about it. Christianity is, as far as you are concerned, a horrible mystery. Keep clear of it, keep silent upon it, as you would upon an abomination. It is a thing that has made men slay and torture each other; and you will never know why. It is a thing that has made men do evil that good might come; and you will never understand the evil, let alone the good. Christianity is a thing that could only make you vomit, till you are other than you are. I would not justify it to you even if I could. Hate it, in God’s name, as Turnbull does, who is a man. It is a monstrous thing, for which men die. And if you will stand here and talk about love for another ten minutes it is very probable that you will see a man die for it.”(Trecho do capítulo 5 de um romance de Chesterton chamado
“The Ball and the Cross“, de 1909.)
We were not a happy
We were not a happy couple, and not a miserable couple. We were six of one and half-a-dozen of the other. How it was I don’t understand, but we always seemed to be getting, with the best of motives, in one another’s way. When I wanted to go upstairs, there was my wife coming down; or when my wife wanted to go down, there was I coming up. That is married life, according to my experience of it.
Wilkie Collins, The Moonstone
Wilkie Collins, The Moonstone
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